A palavra ”florescer” remete-nos a um contexto de leveza e felicidade, algo que vai além do bem-estar ou à mera ausência de doença. Mas será que sabemos realmente o que está por trás de uma vida bem vivida? E será que o que faz florescer do ponto de vista individual e colectivo é o mesmo em Madrid, Jacarta ou Buenos Aires?
Foi para responder a estas perguntas que nasceu o Global Flourishing Study (GFS), um dos mais ambiciosos estudos científicos sobre bem-estar já realizados. Ao longo de cinco anos, mais de 200.000 pessoas de 22 países foram acompanhadas para perceber quem está a ‘’florescer’’ e porquê, e o que é que isso nos pode ensinar.
O conceito de flourishing tem ganho destaque nas últimas décadas, como que uma extensão do bem-estar, plenitude e felicidade. O que significa viver uma vida feliz e com qualidade? Estamos a construir um mundo onde as pessoas podem realmente florescer? E será que florescer é igual em diferentes culturas e idades? Estas perguntas ganharam nova força com a publicação dos primeiros resultados do Global Flourishing Study, o maior estudo sobre florescimento humano, com mais de 200 mil participantes de 22 países. Os dados são claros, surpreendentes e sobretudo necessários.
Afinal o que é o flourishing? Mais do que a mera ausência de doença ou sofrimento, o FLOURISHING refere-se a um estado global de funcionamento ÓPTIMO. O conceito de flourishing, é frequentemente traduzido como “florescimento humano”, e tem recebido uma crescente atenção nas últimas décadas no âmbito das ciências da saúde, da psicologia positiva, da educação e das políticas públicas. É um estado no qual o indivíduo experimenta bem-estar físico, emocional, social e espiritual, acompanhado de sentido de vida, relações significativas, competências pessoais e um envolvimento activo na comunidade.
O Global Flourishing Study é um estudo longitudinal de painel populacional, com uma amostra robusta e global com mais de 200 mil participantes de 22 países, ao longo de 5 anos. Brasil, Índia, Estados Unidos, Nigéria, Espanha, Reino Unido, Japão. O objetivo do estudo é compreender a distribuição e os determinantes do bem-estar, aprofundar o conhecimento sobre o florescimento de forma geral, e especialmente em contextos não ocidentais e identificar os padrões que são culturalmente específicos e aqueles que parecem mais universais.
No estudo, a definição operacional de ‘’florescer’’é: “a realização relativa de um estado em que todos os aspetos da vida de uma pessoa estão bem, incluindo os contextos em que essa pessoa vive.’’ O estudo avaliou seis domínios fundamentais da vida humana: saúde física e mental, felicidade, sentido de vida, caráter, relacionamentos sociais e segurança financeira. Mas nesta definição, há aspectos importantes a considerar:
FLOURISHING: UM CONCEITO MULTIDIMENSIONAL
O Flourishing é um conceito multidimensional. Diz respeito a todos os aspetos da vida de uma pessoa. Alguém pode estar a florescer em certos domínios, mas não noutros. Nenhuma avaliação conseguirá medir o florescimento de forma completa, apenas aspetos dele.
- O flourishing pode ser concebido como um ideal, mas também se refere à “realização relativa” desse ideal. Nunca estamos a florescer de forma perfeita nesta vida, e há sempre espaço para crescer.
- O flourishing abrange tanto aspetos objetivos como subjetivos da vida.
- A compreensão do que é “bom” varia entre culturas e contextos, mas é possível argumentar que existe um terreno comum significativo, e esse ponto de partida comum é razoável para efeitos de medição.
- O flourishing inclui os contextos em que a pessoa vive, como as suas comunidades e o ambiente.
- Embora os termos “florescer” e “bem-estar” sejam muitas vezes usados como sinónimos, o florescimento traz consigo uma conotação adicional: a de que o próprio ambiente deve ser propício ao crescimento e fazer parte do flourishing da pessoa. O bem-estar da comunidade faz parte do florescimento individual e a pessoa participa no bem comum da comunidade.
Principais Resultados do Estudo:
Alguns dos resultados apresentados não são surpreendentes à luz da literatura existente sobre bem-estar, especialmente em relação à satisfação com a vida. Factores como casamento, emprego e fé, já são há muito associados a níveis mais altos de bem-estar — e o GFS confirmou essa associação de forma consistente entre países.
- Variações entre países
O florescimento é multidimensional e culturalmente variável.
Diferentes países prosperam em diferentes domínios. Países desenvolvidos tendem a pontuar mais alto a nível de segurança financeira e avaliação da vida, mas frequentemente mais baixo em sentido de vida e qualidade das relações.
O Japão, por exemplo, apresenta pontuações baixas em muitos indicadores de bem-estar, mesmo quando medidas alternativas foram usadas. Japão, Reino Unido e Turquia tiveram os resultados mais baixos no Global Flourishing Study 2025.
Indonésia, México, Brasil e Filipinas mostraram os níveis mais elevados de flourishing. Países frequentemente classificados como rendimento médio, relatam níveis mais elevados nos aspetos mais humanistas do florescimento.
Portugal não foi incluído nesta fase do estudo, e a Espanha ficou na 16.ª posição entre os 22 países analisados.
2. Variações entre idades
Contrariando a famosa “curva em U” da felicidade, os dados do GFS mostram que, hoje, o florescimento tende a aumentar com a idade. Ou seja: adultos acima dos 50 anos relatam maior equilíbrio emocional, sentido de vida, gratidão e qualidade nas relações. Já os mais jovens estão a enfrentar elevados níveis de stress, ansiedade e perturbações emocionais.
Os dados mostram que os níveis de florescimento mantêm-se estáveis até os 50 anos, e aumentam consistentemente depois dessa idade. Ou seja, à medida que envelhecemos, tendemos a sentir um maior senso de bem-estar e equilíbrio emocional e qualidade nas relações. Por outro lado, os mais jovens revelam hoje níveis mais elevados de sofrimento psicológico e desconexão.
Resta saber se estamos perante um novo efeito da idade ou um efeito de coorte (geracional). Só os próximos anos e novos dados poderão esclarecer. É possível que seja apenas mais difícil ser jovem actualmente, mas que o bem-estar melhore com o tempo. Também é possível que esta geração jovem enfrente um declínio contínuo. A resposta dependerá, em grande parte, das políticas públicas adoptadas para apoiar o bem-estar dos jovens.
3. A infância molda a vida adulta.
Ter tido boas relações com o pai e a mãe, saúde e conforto financeiro na infância foi consistentemente associado a maiores níveis de florescimento na vida adulta. Em contraste, abuso, sensação de exclusão social e dificuldades financeiras infantis foram associados a menor flourishing. A identificação de experiências adversas na infância pode ser um marcador clínico para risco de menor flourishing, sugerindo que intervenções precoces ou abordagens centradas na resiliência e nos vínculos afetivos podem ter efeitos positivos e duradouros.
4. Espiritualidade como factor positivo
A espiritualidade é um dos fatores mais consistentemente associados ao bem-estar atual ou futuro, em diferentes países e em múltiplos domínios do bem-estar, geralmente com um efeito dose-resposta acentuado (quanto maior a frequência, maior o bem-estar).
Este resultado está em linha com grande parte da literatura anterior, centrada principalmente em países ocidentais, mas agora foi ampliado para um leque mais vasto de países.
Cerca de 32% dos participantes relataram participar em actividades religiosass semanalmente ou mais – e foi associada a níveis mais altos de florescimento em diversos contextos culturais.
5- AVALIAR O FLOURISHING VAI ALÉM DO PIB
Indicadores tradicionais como renda, emprego ou expectativa de vida não capturam toda a complexidade do bem-estar humano.
A nova métrica de Florescimento Humano pode guiar políticas públicas mais eficazes e humanas. As formas materiais e humanistas de bem-estar nem sempre coincidem. Existe uma correlação negativa marcante entre sentido de vida e o PIB per capita, já identificada em estudos anteriores. Embora não se afirme que o crescimento económico causa perda de significado, este padrão levanta uma questão essencial: como promover o desenvolvimento económico sem comprometer o sentido e propósito de vida?
6- Adversidade e Flourishing têm relações complexas.
Embora a adversidade seja frequentemente prejudicial — e é essencial combater as condições que causam sofrimento — em alguns casos pode também gerar crescimento, desenvolvimento e certas formas de florescimento. Contudo, estes padrões variam bastante entre países e tipos de resultados. Embora seja fundamental reduzir o sofrimento sempre que possível, a experiência de dor parece ser quase inevitável na condição humana. o estudo mostra que a adversidade pode, em alguns casos, gerar resiliência e crescimento. Saber em que condições isso acontece, como promover esse tipo de superação e quais os seus limites será essencial para investigações futuras.
Conclusões:
Compreender a distribuição global do florescimento — e as desigualdades entre grupos — permite identificar quem mais precisa de apoio e de que forma. Também revela como experiências na infância influenciam o bem-estar na vida adulta, o que é relevante para políticas públicas preventivas.
O próprio termo flourishing pode significar tanto um estado ideal, como um processo dinâmico de crescimento. A grande pergunta torna-se então: como pode cada nação crescer e florescer de forma integral?
O estudo levanta ainda questões cruciais sobre o futuro da sociedade:
- Estamos a investir o suficiente nas gerações mais jovens, que apresentam os níveis mais baixos de flourishing?
- É possível conciliar o desenvolvimento económico com senso de propósito, relações de qualidade e carácter, já que muitos países ricos não estão a prosperar nesses domínios?
- Secularização e desenvolvimento estarão a suprimir as vias espirituais para o florescimento humano?
Ainda há muito a descobrir e a responder.
Limitações do GFS:
Apesar das suas qualidades, o estudo também tem limitações:
- Muitos construtos de bem-estar são medidos por um único indicador, o que pode comprometer a validade e a riqueza conceptual — mesmo que a grande amostra compense parcialmente a menor robustez estatística.
- As respostas são auto-declaradas, estão sujeitas a viés de auto-relato e efeitos do modo de recolha (online, telefone, etc.).
- O estudo aborda principalmente dimensões subjectivas do florescimento, deixando de fora aspetos objetivos importantes.
- Os 22 países escolhidos não representam aleatoriamente o mundo, mas foram selecionados para abranger a maior parte da população global, diversidade geográfica e cultural, e viabilidade logística.
Importante notar:
- A China continental será incluída na segunda fase, o que aumentará ainda mais a representatividade (quase dois terços da população mundial).
- Nenhum país de rendimento baixo está incluído — apenas países de rendimento médio-baixo, médio-alto e elevado.
Por isso, as conclusões devem ser interpretadas apenas no contexto dos 22 países incluídos. Apesar disso, alguns padrões parecem consistentes entre eles, o que sugere que podem refletir tendências mais globais.
Leia através do link o artigo original, publicado na Nature Mental Health em Abril de 2025. The Global Flourishing Study: Study Profile and Initial Results on Flourishing
Florescer é mais do que estar bem. É viver com propósito, cultivar relações que nutrem, sentir que faz parte de algo maior, e crescer, mesmo nas estações mais difíceis. Porque, o florescimento é possível em qualquer lugar, mesmo em cenários de adversidade.





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